Diagramas BPMN com ou sem raias: 3 abordagens em que o foco da modelagem faz a diferença

Usar ou não usar pools e lanes (piscinas e raias) na modelagem de processos é uma discussão de longa data e persistente ainda nos dias de hoje.

A especificação da notação BPMN apresenta e explica a utilização destes componentes mas declara que o seu uso é opcional, o que dificulta ainda mais o entendimento por algumas equipes sobre quando e como usá-los.

Modelar com swimlanes pode trazer clareza visual sobre as entidades organizacionais envolvidas no processo, porém tende a deixar o diagrama mais carregado visualmente, já que haverá mais linhas para se cruzarem e em alguns casos conectores mais longos para unir atividades em raias distantes.

Não utilizar swimlanes, por outro lado, permite aproximar as atividades e elementos do fluxo criando um diagrama teoricamente mais enxuto, mas torna implícito a identificação das áreas e papéis resolvidos – o que até poderia ser resolvido por outros artifícios como o uso de anotações ou complementação na descrição das tarefas (forçando a ter caixas maiores para cada elemento do fluxo e igualmente carregando visualmente o diagrama do processo).

Entre os prós e contras de cada abordagem, há um aspecto muito mais relevante a ser considerado: para quê o modelo de processo está sendo criado.

Exploramos aqui três focos de modelagem que podem ajudá-lo nessa avaliação.

Para ilustrar cada abordagem, vamos utilizar como exemplo um fluxo inspirado no clássico processo de tele-entrega de pizza, traduzido livremente do modelo “5.2 The Pizza Collaboration” em BPMN 2.0 by Example (já usamos este exemplo em um outro artigo sobre modelagem de processos no blog da iProcess – aqui).

1. Quando o foco é analisar como as atividades adicionam valor ao processo 

Neste caso, a melhor abordagem de modelagem pode ser sem lanes, desenhando o processo como um fluxo linear em que todas as atividades essenciais estão em uma mesma linha, e tudo o que é contorno/alternativa é mapeado para cima ou para baixo do fluxo.

Esta é uma abordagem de uso da notação BPMN inspirada em Lean, no qual o Value Stream Mapping (VSM) busca mapear o fluxo de adição de valor do processo.

Esta abordagem foca na fluidez das atividades essenciais à produção do resultado do processo, que são as que devem ser priorizadas em ações de melhoria do processo visando a sua otimização.

 

2. Quando o foco é compreender as responsabilidades dos envolvidos na execução do processo

Aplicar a abordagem de raias para representar os papéis envolvidos no processo é interessante para deixar mais claro visualmente as responsabilidades de cada participante.

Isto possibilita identificar que atividades são executadas por cada papel, e a partir disso identificar quais são as habilidades, competências e nível de autoridade requerido na execução de cada etapa do trabalho.

 

3. Quando o foco é tornar explícitas as interações do cliente com a organização através do processo 

Neste caso, o uso de pools e lanes traz uma camada de informação visual adicional importante, que é a da comunicação entre o processo da organização e o processo do cliente. É possível não apenas identificar onde estão os “momentos da verdade” em que o cliente interage com a organização, mas também com quem e por quê ele faz essas interações.

Esta abordagem é ideal em projetos de transformação que têm como objetivo alinhar o negócio ao foco do cliente, possibilitando compreender a sua experiência atual.

 

Todas essas abordagens são possíveis dentro da utilização da notação BPMN conforme as suas regras – portanto não existe certo e errado.

O melhor caminho é, em primeiro lugar, ter claro qual o propósito da modelagem que estamos realizando e então definir a melhor estratégia de uso da notação!


Webinar: BPMN, BPMN, BPMS e RPA – O Guia Definitivo

Neste webinar, apresentado por nossa consultora Kelly Sganderla, falamos sobre os temas BPM, BPMN, BPMS e RPA – estas siglas que tem a companhado a jornada de quem atua em projetos de gestão de processos e transformação digital do negócio.

Confira aqui o video gravado e as respostas para as perguntas enviadas durante o evento!

Slides da apresentação estão disponíveis no slideshare:
https://www.slideshare.net/iProcessBPMeSOA/webinar-bpm-bpmn-bpms-e-rpa-o-guia-definitivo-93104242

Confira abaixo as respostas para perguntas enviadas por nossos participantes durante o evento:

Pergunta: Você tocou em uma questão importantíssima que são os indicadores ponta a ponta. Eu sempre tenho muita dificuldade de definir indicadores que sejam realmente amplos e não representem exclusivamente o desempenho de áreas específicas. Você pode dar exemplos de indicadores ponta a ponta e dar dicas práticas de como defini-los, e como evitar os indicadores apenas departamentais?
Esta pergunta foi respondida no vídeo, mas vale a pena comparar, nos slides do link acima, as diferenças entre criar indicadores de desempenho das áreas (slide 7) e de desempenho do processo (slide 8).

Pergunta: Pode-se dizer então que a BPMN complementa o BPM?
Eu diria que BPMN está a serviço de BPM. Ela é uma notação para apoiar a prática de BPM em diversas etapas do ciclo de melhoria de processos. Não é a única, mas é uma das mais fáceis e completas, e por isso vem se tornando um padrão de fato no mercado.
Como comentou um outro participante em resposta a esta pergunta, durante o evento: “BPMN é uma notação, assim como a EPC. É uma linguagem lógica para você modelar um processo.”

Pergunta: Quais ferramentas são mais utilizadas para se desenvolver os diagramas do BPMN?
Existem diversas ferramentas no mercado, algumas com mais, outras com menos recursos. Confira nosso artigo 7 Ferramentas Gratuitas para Criar Diagramas de Processos com BPMN para conhecer algumas das ferramentas gratuítas que já testamos, mas tenha em mente que o objetivo da maioria delas é a simples criação de diagramas.

Há quem defenda que, no mapeamento de Processos, não seja realizado o chamado AS IS, declarando ter outros métodos que são mais rápidos e efetivos. Eu entendo muito necessário o AS IS. Como vocês entendem sobre isso?
Esta pergunta também foi comentada durante o evento. A modelagem AS IS é bastante importante em projetos de redesenho. Mas a simples modelagem do AS IS, por mera formalização, sem que haja um propósito maior para o seu uso, é realmente uma prática que tem caído em desuso, já que o processo tem vida e continua a evoluir, independente do desenho no papel.

Pergunta: Na análise do AS-IS alguns clientes costumam alterar o processo, dificultando a entrega do TO-BE. Como você trata essa situação? (Acredito que você já passou por isso).
Outro comentário na mesma linha: tb tenho muita dificuldade, mas nao tem muito como fugir disso, pois quando estamos desenhando o AS-IS, colocando no papel é que o cliente (no meu caso interno, pois nao sou consultor) lembra de atividades e tarefas que precisam fazer parte do processo e não tem como desconsiderar.
De fato, o negócio das organizações é dinâmico e em muitos casos não pode parar só por que há um mapeamento de processos em andamento. Mudanças legais ou emergenciais por exemplo, precisam ser priorizadas e muitas vezes passa na frente do projeto. É importante avaliar e discutir com o cliente, entretanto, se a mudança é simples e fácil de aplicar, ou se pode impactar o processo mais adiante. No segundo caso, é importante argumentar com ele que a mudança não é tão simples, e que para a segurança do negócio pode ser interessante uma análise para avaliar os impactos mais à frente e planejar melhor como implantá-la.

Pergunta: Qual a infraestrutura mínima necessária para uma organização gerenciar seus negócios usando a metodologia BPM com todos os recursos apresentados? Exemplo, uma pequena empresa em fase de estruturação com recursos limitados, consegue efetivamente desenvolver o método?
É um desafio grande, mas pode ser factível. Normalmente as organizações só percebem a importância de adotar o gerenciamento de e por processos quando já estão com processos muito complexos, robustos, com problemas demais, que precisam ser organizados, padronizados e gerenciados. Em uma organização pequena, os problemas dos processos geralmente são resolvidos mais facilmente e na hora em que acontecem, já que tem menos pessoas (e menos camadas hierárquicas) envolvidas. Para que ela perceba valor em adotar a disciplina de gerenciamento de processos, precisa que os líderes da empresa compreendam os ganhos que terão no decorrer do crescimento da empresa (com processos organizados e gerenciados o crescimento acontece de forma mais estruturada) e desde o princípio tratem o tema com relevância e prioridade entre as demais atividades do negócio.

Pergunta: a tarefa feito pelo robô na automação pode ser comutada entre um usuário e o robô, dependendo da necessidade?
Sim! E o robô pode eventualmente falhar na sua execução (digamos que o site que ele precisava acessar não estava no ar e a tarefa ficou pela metade). Então é possível que partes do trabalho sejam feitas pelo robô e outras por uma pessoa, ou eventualmente a tarefa seja realizada por um ou por outro, devido a alguma regra da organização. É por isso que chamamos os robôs em RPA de “trabalhadores automáticos”.

Pergunta: Você conhece ou recomenda outras ferramentas de RPA? Elas geralmente são free ou pagas?
Atualmente a iProcess trabalha com três ferramentas que estão entre as TOP internacionais e também uma importante ferramenta brasileira.
Conheça estas soluções – saiba mais em www.iprocess.com.br/rpa/

Pergunta: O RPA não faz o que o BPMS faz? Um exclui o outro? Ou ainda ambos podem trabalhar integrado?
Não! As ferramentas podem ser complementares. O BPMS tem como propósito orquestrar processos de negócio, comunicando e envolvendo diferentes participantes para que um processo completo possa ser executado.
Já o RPA serve para processamento de tarefas repetitivas, podendo substituir, em alguns casos, o trabalho de uma pessoa humana em um processo de negócio.
Confira no video como pode acontecer a interação entre BPMS e RPA.

Pergunta: Se a atividade é de usuário, mas está sendo executada por um robô, o símbolo BPMN utilizado continua o mesmo??
Sim, o símbolo BPMN usado é o mesmo, porque a interface é a mesma de um usuário. Assim, mesmo que o robô venha a ser desativado, uma pessoa poderá realizar o trabalho no seu lugar. A substituição é apenas de um trabalhador humano por um trabalhador automático.

Pergunta: Qual a diferenca de Indicador de Controle e Indicador de Performance?
Complementarmente, outro comentário nesta linha: Indicadores deveriam ser abordado em uma outra video aula, ma empresa onde trabalho existe uma grande dificuldade de entender a definição dos indicadores.
Este tema tem sido bastante apontado nos nossos cursos. Vamos planejar uma série direcionada para indicadores! Aguardem, em breve teremos notícias sobre isto :)
Enquanto isso, confira este artigo: Medidas, Métricas e Indicadores na Gestão por Processos

Pergunta: Você poderia detalhar um modelo de monitoramento de RPA?
O que precisamos monitorar nos processos automatizados com RPA/robotizados?
O monitoramento de RPA envolve outros componentes de gerenciamento, como uma sala de controle do desempenho, alocação e agendamento de robôs. Mas isto é um tema mais amplo, em breve voltaremos a aprofundar este tema!

 

Problemas comuns na modelagem de processos em BPMN III – Uso de tarefas para sinalizar o resultado de gateways

Continuando a série sobre problemas comuns na modelagem de processos em BPMN (veja os artigos anteriores aqui e aqui), hoje iremos falar de uma situação bastante recorrente que constatamos nos nossos treinamentos, que é o uso de tarefas para sinalizar o resultado de gateways no processo.

Para explicar melhor o que queremos dizer, veja o exemplo abaixo:

Perceba que a pessoa que modelou o processo, para demonstrar os resultados do gateway relativo à atividade “Avaliar Reembolso”, optou por criar duas tarefas em cada um dos fluxos de sequencia ligados ao gateway, nomeando-as como “Aprovado” e “Reprovado”.

O elemento Tarefa (Task) de BPMN se refere a um trabalho que é efetivamente realizado dentro de um processo. Uma tarefa deve, essencialmente, indicar uma ação a ser realizada, que consuma algum recurso (como a tarefa “Avaliar Reembolso” no exemplo acima).

Logo, concluímos que não faz sentido utilizar uma tarefa apenas para indicar uma mudança de status ou sinalizar os resultados de um gateway.

Qual então seria a forma correta de modelar este caso? Veja no exemplo atualizado abaixo:

A abordagem correta (e mais simples!) é simplesmente nomear os fluxos de sequencia ligados ao gateway. No caso acima, cada fluxo de sequência foi nomeado com os resultados possíveis da tarefa de Avaliar reembolso, ou seja, “Aprovado” ou “Reprovado”.

Com isto, o desenho do processo fica mais limpo e fácil de interpretar. Simples e prático! :-)

Problemas comuns na modelagem de processos em BPMN II – Uso de eventos de mensagens para comunicação dentro do processo

Continuando a série de artigos que falam de erros, problemas e inconsistências básicas de modelagem (veja artigo já publicado aqui), vamos falar hoje de outra situação bem comum, que é a utilização de eventos de mensagem para comunicação entre papéis/raias dentro de um mesmo processo.

Vamos imaginar um processo ponta a ponta de uma organização, como por exemplo um processo de compras, onde em determinado trecho temos uma comunicação entre dois papéis ou áreas diferentes que atuam neste processo, no caso uma comunicação para o solicitante da compra de que a mercadoria foi recebida. Se olharmos apenas uma definição genérica do evento do tipo message, temos que um evento deste tipo trata de “uma comunicação entre 2 participantes do processo”.

Partindo deste pressuposto inicial, alguém poderia imaginar uma modelagem como esta:

Perceba que foram utilizados dois eventos do tipo message, um de envio (throw) na raia de Compras e outro de recebimento (catch) na raia do Solicitante.

Qual o problema desta abordagem? Basta nos aprofundarmos um pouco mais na especificação oficial de BPMN (link), para encontramos o seguinte trecho na seção “10.4.1 Concepts“:

“Messages are triggers, which are generated OUTSIDE of the Pool they are published in. They typically describe B2B communication between different Processes in different Pools.”

Em tradução literal: mensagens são gatilhos gerados fora da pool onde estão publicados, descrevendo tipicamente a comunicação B2B entre diferentes processos em diferentes pools.

Assim, o evento do tipo message só deve ser usado para comunicação com participantes EXTERNOS ao processo, não devendo ser utilizado para comunicar com um participante que já faz parte (ou seja, já é uma raia) do processo.

Partindo deste novo conhecimento adquirido, como ficaria então o processo descrito acima? Para isto, precisaríamos saber um pouco mais sobre de que forma é feita a comunicação entre a área de compras e o solicitante. Supondo, por exemplo, que a comunicação fosse realizada como um email disparado automaticamente pelo sistema (ou pelo processo automatizado), poderíamos ter então este desenho:

Neste caso, em vez do par de eventos do tipo message de envio e recebimento, teríamos apenas uma service task indicando o envio de email de forma automática. Perceba que o recebimento de email pelo solicitante não é uma atividade que envolva trabalho (consumo de recurso) de fato. Assim, receber um email é uma situação passiva e consequência direta do envio do email, portanto não é necessário uma tarefa para receber o email na raia do solicitante.

Problemas comuns na modelagem de processos em BPMN – I – Atividades de transferência do processo

Vamos iniciar hoje uma série de artigos que pretendemos publicar ao longo dos próximos meses, falando especificamente de erros, problemas e inconsistências básicas de modelagem, comuns de ocorrer quando começamos a modelar processos e ainda não conhecemos muito bem a notação BPMN.

Pra começar, vamos falar de uma questão muito frequente, que se refere ao encaminhamento de um papel do processo para outro. Vamos imaginar um processo de Viagens, que foi descrito pela área de negócio da seguinte forma:

  1. Um colaborador solicita a viagem
  2. Solicitação de viagem é encaminhada (atenção especial ao uso desta palavra) para uma área interna chamada “Administrativo”, que tem a responsabilidade de pesquisar e mandar cotações da viagem para o solicitante
  3. Cotações são então encaminhadas de volta para o Solicitante avaliar
  4. Se a cotação for aprovada, processo é direcionado novamente para setor Administrativo comprar os tickets, do contrário processo é direcionado de volta para o setor Administrativo refazer as cotações

Agora veja como o modelador decidiu, inicialmente, representar este processo:

Note que no caso da primeira transferência do processo, do papel “Solicitante” para o papel “Administrativo”, foram criadas 2 atividades:

  • Uma atividade na raia do “Solicitante”, chamada “Encaminhar Viagem para Cotação para Administrativo”
  • Uma atividade na raia do “Administrativo”, chamada “Receber Viagem para Cotação do Solicitante”

O mesmo comportamento foi modelado posteriormente, na transferência do papel “Administrativo” para o papel “Solicitante”, com as atividades “Encaminhar Cotações para Solicitante” e “Receber Cotações do Administrativo”, respectivamente.

Este trecho do processo não está errado do ponto de vista da notação BPMN. Mas o que temos aqui, no entanto, são atividades que na prática não precisariam existir. O modelador optou por explicitar a passagem de bastão de um papel a outro através de atividades de transferência do processo, mas isso não é necessário: em BPMN, o próprio fluxo de sequencia já tem o papel de representar/realizar esta transferência de responsabilidade dentro do processo. Neste caso, como ficaria o desenho do processo ajustado? Veja a seguir:
Perceba que com esta mudança, deixamos o processo mais simples e limpo, ao mesmo tempo mantemos o comportamento esperado.

O conceito de utilizar apenas fluxos de sequência para representar a transferência de atividades dentro do processo costuma se aplicar mesmo que exista, de fato, um encaminhamento físico sendo realizado. Por exemplo, este processo de viagens poderia ser realizado em papel, implicando que o solicitante tivesse que levar fisicamente a solicitação impressa e assinada para o setor Administrativo. Mas mesmo neste caso não seria necessário modelar as atividades de transferência. Caso fosse necessário ressaltar este aspecto de encaminhamento físico de algo, poderiam ser utilizados outros recursos para representar, como adicionar uma anotação ao processo ou documentar esta característica do processo nos procedimentos das atividades.

Um cenário em que poderia ser necessária uma atividade para encaminhar ou receber o processo seria num caso em que as atividades são reconhecidamente manuais, realizadas no plano físico, e que possuem procedimentos adicionais, como protocolar a chamada do documento esperado, carimbar, etc. Por exemplo, num processo logístico poderíamos ter uma atividade da área de “Recebimento” chamada “Enviar material para Estoque”, onde “Estoque” é uma área da organização:

Note que, em linhas gerais, continuamos falando do mesmo exemplo citado no Processo de Viagens: a passagem de bastão de uma área para outra. Se o ato de encaminhamento físico do material de um lugar para outro envolve procedimentos adicionais e tem um tempo de execução relevante (vamos imaginar neste caso uma grande planta industrial, em que seria necessário percorrer a distância entre um setor para outro), ou seja, a atividade consome efetivamente recursos, então neste caso faria mais sentido criar uma atividade de transferência.

Fique ligado para outros artigos desta série no futuro! ;-)

Em que nível devo modelar meu processo?

Uma das principais atividades na transformação de um processo é a sua modelagem. Seja no princípio do projeto, para representar a sua situação atual (AS IS), a criação de modelos para simulação ou comparação de variações, a definição da sua visão de futuro (TO BE) ou o fluxo a ser implementado para automação, a modelagem é importante na representação do processo que está sendo detalhado ou melhorado.

A representação visual do modelo utilizando uma notação gráfica como BPMN é um dos seus aspectos chave da modelagem. O nível de detalhe das atividades no diagrama de processos, entretanto, é frequentemente tema de debate entre os profissionais de Processos.

A notação BPMN, apesar de poderosa e de ter uma gramática bem definida quanto ao uso dos seus elementos, não estabelece qual seria o nível ideal de modelagem do processo. Ela define formalmente que “uma atividade representa um trabalho”. Mas devemos ir por uma abordagem mais alto nível do significado de trabalho (o “trabalho” é aquilo feito por uma área inteira?) ou mais baixo nível (o “trabalho” é cada ação realizada por alguém para atender ao resultado objetivo do processo?).

Não há uma regra para isso, e na verdade cada tipo de modelo pode requerer um nível de detalhe diferente no mapeamento do processo, de acordo com o propósito para que serve aquele modelo.

Por exemplo, em uma reunião no qual estamos buscando um entendimento amplo sobre o processo, com uma visão ponta a ponta em que possamos identificar suas principais etapas, um nível alto seria o mais apropriado.
Mas e quando vamos mapear um processo que será usado como material de treinamento, num manual de processos ou para descrever o trabalho de uma determinada etapa?

Existem alguns critérios que podem ser interessantes de serem questionados pela equipe ao definir o nível de modelagem do processo que estamos criando.

Como oportunidade de reflexão, um de nossos leitores contribuiu recentemente com dois exemplos de processos. Vamos tomar por base então o seguinte exemplo:

1) Nesse fluxo, podemos perceber que o fluxo do mapeamento está em nível de procedimento, não de trabalho. O trabalho seria, por exemplo, “Avaliar baixa”, que envolve esta sequência de procedimentos: Consultar arrecadações, selecionar arrecadação, …, até confirmar baixa manual. Embora exista uma sequência entre eles, pode ser uma sequência flexível, em que a ordem dos itens pode eventualmente mudar na operação da pessoa no sistema. Esse nível de detalhe é bem comum de ver em processos modelados por profissionais de TI. Cuidado para não confundir o fluxo de trabalho com o fluxo de interação com sistema. Para esse segundo, devemos utilizar UML (Diagrama de sequência ou diagrama de atividades ou até mesmo passos de um Caso de Uso).

2) Pensando no por quê modelamos processos no nível de operação, geralmente fazemos isso para entender o processo e ter um parâmetro para avaliar o seu desempenho, certo? Assim, normalmente as tarefas são utilizadas para determinar o trabalho do processo, onde podemos medir o tempo e custo da sua realização. Neste sentido, será que realmente interessaria para a organização mensurar detalhadamente quanto tempo leva para executar cada um desses passos? Ou é mais importante entender quanto tempo, dentro da dinâmica do processo, um profissional leva para realizar a análise e a baixa, de uma forma consolidada?

3) Geralmente quando mapeamos nesse baixo nível, fica mais difícil representar as exceções. Por exemplo, no caso em que qualquer um desses passos seja possível o ator voltar atrás em alguma ação. Nesse fluxo, teríamos que desenhar também todas as possibilidades de voltar e refazer algum passo. Ou seja, após ele selecionar o ingresso, ele terá que selecionar uma parcela. Mas se ao selecionar a parcela ele se der conta que escolheu o lançamento errado, ele poderia voltar pra selecionar outro lançamento?

4) Um outro fator a considerar é a manutenibilidade do processo. Queremos dizer com isso que qualquer mínima alteração nas ferramentas podem fazer com que você tenha que criar uma nova versão do seu diagrama de processo, tornando a manutenibilidade da documentação mais custosa e também dando mais chance para ela se tornar rapidamente obsoleta.
Se você tem uma tarefa “Avaliar baixa” e nela descreve os procedimentos, e a sua organização mudar do sistema XPTO para o sistema MEGAXPTO, o trabalho feito pela organização continuará sendo o mesmo, que é avaliar a baixa. O processo não mudou, o que mudou foi a ferramenta. Assim, no nível de mapeamento do trabalho, a manutenção fica mais fácil porque não precisará mudar o fluxo, apenas atualizar o procedimento (passos realizados naquela atividade, que podem ser descritivos complementares ao desenho do fluxo).

Se o plano for automatizar o processo, esses critérios podem ser ainda mais relevantes, porque o motor de processos é muito literal na interpretação do modelo. Confira uma outra reflexão semelhante que já fizemos sobre o assunto aqui no Blog da iProcess no artigo: Estudo de Caso: Automatizar o processo (ou não)? Eis a questão!